“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

24/05/2017

O gueto - por Fernando Brito

João Agripino da Costa Doria Junior
Faltam, é verdade, as cruzes de ferro, as gamadas, os dois relâmpagos à gola, a Luger, os quepes ornados pela águia.

Nem é Varsóvia, é São Paulo.

Mas da imagem emana o gueto, os restos miseráveis dos quais vivem os párias, os anti-sociais, as desgraças da Cidade Linda.

Nem mesmo na foto aparecem, de tão à margem que estão. Só os despojos de lixo de suas vidas no lixo aparecem, já com os garis prontos a remove-los e leva-los para tão longe quanto eles serão levados.

Do olhar frio e impiedoso, dardejam os raios da purificação: que os levem a Auschwitz, Sobibór, Treblinka, Lublin…

Lá, vão aprender que Arbeit match frei, o trabalho liberta, e vão andar como zumbis esfregando o chão das empresas que colaboram com a eugenia, esquálidos, olhando para o chão, recolhendo-se aos cantos para tremer sua doença.

A sociedade bem-posta – inclusive alguns que têm os avós e bisavós com os braços marcados a ferro em brasa – o aplaudirá. É muito, até, para estes animais, que nos emporcalhavam e assustavam.

Afinal, o que define a humanidade é a produtividade – como nas vacas leiteiras, a quantidade de leite que produzem – e não a vaga semelhança que tem com meu corpo bem cuidado, nem a que seus trapos possam ter com meu cashmere.

Tampouco ser humano é sublimar sua condição e sentir um desejo imenso, incontido, de aproximar-se do que parece ser semelhante, mesmo que brusco e arisco pelo que o mundo e a droga o tornaram, como avaro e cobiçoso fizeram aos judeus, o vagar, sempre tangidos, por dois milênios pelo mundo.

Quem manda não terem prazer senão o delírio e a nóia, em lugar do iate, do jato, dos luxos?

São Paulo precisa de seu lebensraum, de seu espaço vital, onde não cabem almas que não sejam arianas, mesmo que de pele tostada, feito aquele clown que arranjaram.

Nele, só podem ser admitidos os craques se estes fizerem brilhar os Jardins.

Não os que comem restos com as mãos, ávidos, famintos.

Só os que têm o Caviar Lifestyle.

23/05/2017

Antonio Hélio: Mora em mim tudo o que não consigo ser




Cada pessoa é um lugar
Que habitamos,
Que nunca vamos achar.
Ilha, continente, subúrbio, fazenda.
Tem gente que se faz de casebre,
Tem gente que é palácio,
Mas só parece.
Todo mundo quer mesmo,
É ter ocupação, inquilino, morador e visitante.
A gente só vive quando no outro existe,
Fora disso é tudo solidão, sono e tolice.
Mora em mim tudo o que não consigo ser.

Antonio Hélio Siqueira


03/05/2017

Belchior, importante é o bem que se faz!

Entre tantas lindas homenagens e depoimentos prestados a Belchior neste dia de sua morte (30 de abril de 2017), há aquelas que maldizem e buscam os defeitos e erros cometidos por ele. Li artigos aterradores, mas ninguém melhor que Belchior para saber que o mundo humano é assim mesmo, cruel sempre, na vida e na morte. E diante da frase "errar é humano" eu registro a você, Belchior, que o importante é o bem que se faz. Obrigada por tanta poesia linda e significativa! Fica bem! 

17/01/2017

Grafitti brasileiro na Escocia


THE GRAFFITI PROJECT, COLABORAÇÃO OSGEMEOS, NUNCA E NINA PANDOLFO

Escócia, 2007


Em 2007, por pedido de seus filhos David e Alice, o Lord Glasgow Patric Boyle convidou três artistas brasileiros – OSGEMEOS, Nunca e Nina Pandolfo – para pintar a fachada e teto de seu castelo Kelburn, de 800 anos, localizado em Fairlie, na Escócia. Inicialmente, este projeto deveria ser temporário até que o castelo fosse reformado. Porém, o Lord conseguiu a permanência da obra junto à Historic Scotland, uma vez que se tornou um ponto turístico na área, assim como uma das principais referências da carreira de OSGEMEOS.

http://www.osgemeos.com.br/pt/projetos/the-graffiti-project/#!/2790

Cidade Cinza

O Prefeito eleito (por apenas 37% da população paulistana) para governar Sampa (Doria teve 3.085.187 votos e perdeu pra nulos e brancos (3.096.304 = 38%) já começa 2017 aplicando seu conceito de beleza muito questionável. Porquê Sampa tem que ser cinza? O colorido da arte dos grafiteiros, dá alegria a essa cidade caótica e agressiva. Ele está apagando a arte das ruas, a memória dos artistas, rumo à contra mão do movimento...

#ForaCinza #ForaDoria.